O Espírito Santo em Missão | Atos 2:42-47

Weinne Santos 06/10/2013

O Espírito Santo em Missão | Atos 2:42-47

Unidade3
Pregado em 6 de outubro na Igreja Presbiteriana Adonai, por Weinne Santos.

Para ver o estudo completo, com contexto, análise de verbos, estudo indutivo e citações, clique no botão abaixo:

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 Eles se dedicavam ao ensino dos apóstolos e à comunhão, ao partir do pão e às orações. Todos estavam cheios de temor, e muitas maravilhas e sinais eram feitos pelos apóstolos.

Todos os que criam mantinham-se unidos e tinham tudo em comum.Vendendo suas propriedades e bens, distribuíam a cada um conforme a sua necessidade.

Todos os dias, continuavam a reunir-se no pátio do templo. Partiam o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração, louvando a Deus e tendo a simpatia de todo o povo.

E o Senhor lhes acrescentava todos os dias os que iam sendo salvos.

Atos 2:42-47

Introdução: É comum em nossa caminhada com Cristo, um certo tipo de medo, ou paranoia, sobre a nossa participação na missão de Deus. Quando surgem dificuldades, bate o desânimo ou temos fracassos frequentes em manter os núcleos, engajar pessoas e formar novos líderes, começa o ritual masoquista de acusações: o que fiz de errado? Podemos nesses momentos projetar uma imagem de uma comunidade de fé frutífera. A igreja sempre idealizou a imagem da igreja primitiva, como a de Atos (não é a toa que discussões se travam sobre como exatamente era o funcionamento dessa igreja, em relação a estrutura organizacional e etc).

Contexto: É significativo que essa imagem da igreja frutífera, tão idealizada, esteja em Atos logo depois do pentecostes. E é significativo que seja a única vez em que o modus operandi dessa igreja esteja no passado imperfeito, em toda a Bíblia. Perseveravam, mantinham-se unidos… Isso tudo porque o sujeito principal desse texto é o Espírito Santo. Alguns acontecimentos importantes podem ser citados para esclarecer essa passagem:

  • Cristo ressuscitou!
  • Cristo aparecia a seus discípulos e os ensinava
  • Os discípulos são enviados
  • Cristo é ascendido aos céus
  • Os apóstolos oram pelo derramamento do Espírito
  • Os apóstolos e 120 discípulos recebem o Espírito Santo
  • Os apóstolos, principalmente Pedro, prega para pessoas de várias linguagens e origens, e há a reversão de Babel
  • A igreja cresce, e tem cerca de 3 mil membros

Podemos extrair desses pontos que a ação de Deus começaria com o derramamento do Espírito Santo, que ela não se daria por meios políticos, que os discípulos são enviados a irem e pregar o evangelho no poder do Espírito Santo, e que, com a reversão de Babel, há na ação de Deus um caráter de união de vários povos, tribos e raças. Deus une o que antes era dividido. O autor do texto é Lucas, médico com talentos de historiador, que descreveu as ações da igreja dos apóstolos com o objetivo de inocentá-los perante Roma e mostrar sua expansão pelo império. O resumo de atos é o versiculo 1.8. O tema do livro é a ação do Espírito por meio dos apóstolos, na expansão no império Romano e por todo o mundo.

Tema: O Espírito em Missão

Proposição: A ação de Deus, por meio de seu povo, é um trabalho contínuo e comunitário. Temos aqui alguns aspectos da ação de Deus por meio de uma comunidade de fé.

Aspectos:

Dependente

A ação da igreja, a sua missão, depende da ação do Espírito, e do cuidado soberano do Pai. Ela também depende do ensino dado diretamente por Deus, por meio de Jesus Cristo aos apóstolos, dos apóstolos aos discípulos, e da Bíblia a nós. Temos aqui um aspecto vertical da missão, ela começa no que nos foi dado de cima, no fato de termos sido enviados no poder de Cristo ao ministério da reconciliação. Precisamos nos apegar juntos a Palavra e a oração (v. 42).

Já ouviu a palavra workaholic? Workaholic é uma pessoa viciada em trabalho. Ela trabalha tanto que esgota toda a sua energia, nas suas madrugadas sempre regadas a muito café. Ele ama o seu trabalho, porém logo perde a motivação por não ter reservas de energia nem meios para restaurá-la. Em pouco tempo, pode se tornar um amargurado, eternamente cansado. Pense no personagem de Adam Sandler, no filme Click.

Temos nos dedicado a oração ou sido como workaholics? Temos nos dedicado a aprender e praticar a Palavra, ou apenas a buscado com interesses? Temos feito essas coisas juntos, suportando e ajudando uns aos outros? Temos dado a devida atenção e o devido tempo a essas coisas, para que aproveitemos, ou temos sido ativistas que nunca param para depender de Deus?

Contínua e Perseverante

Os versículos 42 e 46 falam sobre a perseverança da igreja nos ensinamentos, comunhão, oração (42) e partir do pão (46). A palavra “perseveravam” em algumas traduções é implícita no versículo 46, mas está lá: proskartereó. Essa palavra é uma junção de pros, ir (também é um auxiliar que indica ação contínua), e kartereó, perseverante ou paciente.Kartereó tem sua origem na palavra kratos (quem aí joga God of War?), que remete a poder, domínio ou também “firmeza”. Perseverar, nesse sentido, pode ter um significado parecido com “seguir firme” ou “permanecer firme”. O fato do verbo indicar continuidade já mostra um aspecto contínuo da missão da igreja. O que começou naquela igreja continua até hoje: permanecermos firmes na doutrina, comunhão, oração e compartilhamento.

A ação da igreja tem um aspecto contínuo. Desde a promessa a Abraão, até os dias de hoje, ela continuou por vidas inteiras. Deus trabalha aos poucos, na tensão do já e ainda não, com uma continuidade que se alonga por todas as nossas vidas, e por toda a história de seu povo. É possível ver a ação de Deus no meio de seu povo nas reuniões diárias no templo e nas casas, no partir do pão, no ensino contínuo, nas orações regulares, nos relacionamentos construídos.

Nós temos o costume de tentar encaixar a ação de Deus em agendas. Temos o dia do evangelismo, dia do culto, dia do ensino, dia da comunhão… Às vezes realizamos um treinamento e colocamos nele a esperança de melhorias para o nosso grupo. Essas coisas não são erradas em si, mas são pequenas em relação a transformação que Deus promove ao longo de nossas vidas todas. Embora Deus possa sim trabalhar em eventos, e haja em alguns lugares conversões em massa, normalmente Ele age em pequenas atitudes e gestos, em orações curtas como a do publicano, ou num compartilhar numa sala de aula.

Como podemos pensar na ação de Deus além de nossas agendas e eventos? Será que colocamos nossas esperanças em calendários? Precisamos pensar fora da caixinha, e ver que a ação de Deus é também temporalmente integral, e não dividida em nossos blocos de tempo. Ela é contínua, e nela devemos caminhar firmes e com fé. Não é um lugar, mas um caminho, com um propósito. Nós precisamos andar.

Comunitária:

A ação de Deus na igreja é comunitária, e não individual. A palavra “em comum”, “comunhão”, “todos” remete ao fato de que a oração, o ensino e o serviço era algo buscado em comunidade. Todos buscavam obedecer os apóstolos, em palavras e obras, e também todos buscavam a Deus.

Existe uma certa tendência evangélica em valorizar a busca por santidade individual. Isso não é errado em si, porém é prejudicial se acontece em detrimento da busca em comunidade. Valorizamos a oração pessoal, momentos devocionais e estudos bíblicos individuais, e reservamos o coletivo apenas para os domingos de culto. O resultado disso é uma crescente culpabilização, pois dificilmente sozinhos conseguiremos manter uma disciplina em todos esses aspectos. O Espírito nos fez para ajudar uns aos outros, e não para ser super-heróis solitários. Não devemos tentar vencer a luta vã, e ser campeões, mas sim buscar uns nos outros a nossa força.

Tenho tentado ser um lobo solitário, orando, trabalhando e servindo sozinho? Tenho sido relutante em me deixar ser pastoreado por irmãos? Tenho dado oportunidade para que outros me ajudem no trabalho? Tenho buscado também servir a outros, numa unidade de corpo?

Partilhadora e Humilde:

A ação de Deus na igreja levou os primeiros cristãos a partilha. Devemos frisar que isso não é normativo, e todos os comentários fazem questão de frisar isso. O caso de Ananias e Safira, e a resposta de Pedro nos mostram que podemos, sim, ter nossas propriedades e fazer o que bem entendermos com nosso bens. Mas ainda assim, mais algumas coisas devem ser consideradas: o que levou essa comunidade a viver a comunhão de tal forma, de negar seus direitos legítimos a propriedade? Será que não foi uma desvalorização, abnegação de seus próprios direitos, diante de um amor verdadeiro a obra de Cristo por meio da igreja? O Espírito traz na comunidade uma tendência a abnegação voluntária de si em direção ao Reino.

Um personagem de C.S Lewis em Uma Força Medonha, ao tratar rapidamente sobre o casamento, faz um paralelo entre a igualdade e a humildade. Ele diz que a “igualdade não é a coisa mais profunda que existe”, e que “a obediência, a humildade, o é”. Veja isso num contexto de casamento: enquanto se pensa nesse relacionamento como se fosse um contrato, expectativas e exigências minam o que deveria ser uma relação de total entrega. Essa é a lógica da igualdade: eu faço se você fizer, eu dou se você der em troca. Ela exige direitos. Já a humildade abdica de seus direitos em favor do próximo. Ela não arroga nada para si, e tudo oferece ao próximo, sem reclamar. Um casamento baseado na humildade e na obediência não é um contrato, e sim uma aliança.

Cada um lava seu prato! Como pode eu fazer a limpeza, se ele não faz nada? Por que Deus não responde meu pedido, se tenho trabalhado tanto? Como pode eu me sacrificar tanto por gente que nem se importa? São frases como essa que usamos quando requirimos nossos legítimos direitos.

Como lidar com meus bens na lógica da humildade? Como pensar meus relacionamentos, meu serviço e minha oração na lógica da humildade?

Relacional:

“Precisamos trabalhar por uma cultura do encontro”. Eles com certeza se encontravam muito. Todos os dias, no templo e nas casas, desenvolviam relacionamentos baseados no serviço humilde, sincero e alegre.

Como tenho pensado em comunhão? É comum em nossas igrejas e grupos de ABU tentarmos “resolver” nossa falta de comunhão com mais reuniões marcadas, tapiocadas, sorvetadas. São iniciativas boas, mas não trabalham com o foco do problema. Vimos aqui que a união começa na verdade e nas práticas cristãs. Depois, se estende a uma “cultura do encontro”, no templo e nas casas. Eles, por iniciativa e humildade, mantinham comunhão, ou seja, tudo tinham em comum (ainda que isso significasse uma certa abnegação de direitos). O Espírito Santo, agindo nos corações, não os leva a um monasticismo individual, mas faz-nos voltarmos na direção do outro. Isso ocorre com alegria, de forma orgânica, e não sintética.

Como tenho lidado com relacionamentos? Tenho trabalhado em prol de uma cultura do “encontro”? Tenho partilhado momentos no templo e também em casa? E se tenho momentos de comunhão, eles são alegres ou sintéticos? Tenho confundido churrasquinhos dominicais com comunhão? Precisamos orar por uma renovação vinda do Espírito nesse aspecto.

Não-mensurável:

O resultado da ação de Deus na igreja é o favor do povo e a adição, dada por Deus, de novas pessoas a essa comunhão. É claro que nem sempre a igreja contará com a aprovação do povo, embora a palavra “graça”, literalmente, “favor”, indique que o espírito de humildade contagiava para além dos limites da igreja. É interessante que, desde a ação e até mesmo os resultados vêm de Deus. Nós somos meros instrumentos.

É comum, nos momentos de dificuldade, nos preocuparmos com números e resultados. Quando vemos igrejas que utilizam métodos de crescimento, grandes eventos com conversões em massa e evangelismo de impacto, e novamente nos deparamos com nosso pequeno grupo de estudo, somos tomados por até uma certa inveja. Isso é um reflexo de como a mentalidade de nossa geração tem nos influenciado, e nos feito esquecer de que somos meros instrumentos. É Deus que realiza sua obra, pela ação do Espírito Santo.

Tenho esperado demais de eventos e ações pontuais, e menos de Deus? Tenho calculado, medido o crescimento do povo de Deus em termos de desempenho? Tenho esperado conversões em massa, e não um simplesmente “adições” contínuas?

Conclusão: Pentecostes já aconteceu! Todo o poder já nos foi dado para viver uma comunidade de fé missional, e basta darmos liberdade ao Espírito e termos um pouco de ousadia e perspectiva. Nos dediquemos a verdade, ao evangelho, a comunhão, oração e partilha, tendo em mente a humildade e esperando a consolação do Senhor, para a glória dEle.

Para continuar a conversa…

A Importância da Unidade
Devocional da Mars Hill Church (igreja do Mark Driscoll)

A Mensagem de Atos
Comentário bíblico aplicado de Atos, de John Stott

Uma Força Medonha
Terceiro livro da “Trilogia Cósmica”, de C.S Lewis

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